Gays no Carnaval: ‘Momento de liberdade vem de uma sociedade repressora’

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    Crédito, Augusto Malta/Acervo Instituto Moreira SallesLegenda da foto, Grupo As Marrequinhas, de homens fantasiados de mulheres, no Carnaval de 1913, no Rio Article informationNo Carnaval de 1964, as rádios e as ruas brasileiras começaram a tocar sem parar a marchinha Cabeleira do Zezé, de João Roberto Kelly.- Será que ele é, será que ele é?A resposta para a pergunta era (e ainda é) entoada em uníssono por foliões Brasil afora: Dependendo de quem gritava, porém, a resposta recebia contornos diferentes, como registrou o professor e historiador americano James Green em seu livro Além do Carnaval: a homossexualidade masculina no Brasil do século XX (Editora Unesp).Embora os foliões heterossexuais entoassem a palavra com uma conotação pejorativa, os frequentadores dos bailes gays da época, especialmente no Rio de Janeiro, gritavam o mesmo, mas como uma afirmação de sua identidade sexual.Durante muito tempo, no Brasil, aqueles quatro dias de folia de Carnaval eram a única oportunidade de homossexuais e pessoas trans (mesmo que, naquela época, não se afirmassem dessa forma) demonstrar publicamente algum tipo de transgressão aos padrões da sociedade. Não era só nos bailes fechados com concursos de fantasia — que tinham cobertura garantida nas principais revistas do país —, mas também em cortejos de homens vestidos de Carmen Miranda ou em filmes eróticos gays produzidos por estrangeiros que voltavam do país impressionados com a nossa “liberdade” tropical.Essas imagens, diz Green em entrevista à BBC News Brasil, reforçavam “estereótipos sobre o Brasil, como se fosse um país super aberto, liberal, sem considerar o fato que é uma cultura muito conservadora em vários sentidos, apesar dessa liberdade que tem durante os dias do Carnaval”. O Carnaval vendeu, então, dentro e fora do país, a imagem de uma convivência pacífica da sociedade brasileira com a homossexualidade e a bissexualidade.Para Green, que é professor de história do Brasil na Universidade Brown, uma das mais respeitadas dos Estados Unidos, isso mostra a complexidade religiosa-festiva que é parte da sociedade brasileira.”De um lado, há essa sociedade católica, evangélica, conservadora, com uma valorização enorme da família nuclear, e, do outro lado, esses momentos de escape, de liberdade, em que as pessoas aproveitam para se sentir mais relaxadas numa sociedade rigidamente hierarquizada e repressora”, defende o brasilianista, também fundador no país do movimento Somos: Grupo de Afirmação Homossexual, em 1978 e autor de livros sobre a ditadura militar no Brasil.Crédito, Marcelo Prosdocimi/Acervo PessoalLegenda da foto, O brasilianista James Green vai desfilar no Carnaval de SP em 2025Além da ironia de um país conservador abraçar a festa numa dimensão nacional, a permissividade temporária também escondia uma realidade muito mais dura para pessoas gays e, especialmente, negras durante o restante do ano, defende o pesquisador.”Esse momento de liberdade é muito ligado ao fato de que o Brasil era um Estado baseado na escravidão”, conta Green.”As pessoas escravizadas aproveitavam as festas religiosas católicas para poder ter uma folga, não trabalhar e ter uma certa afirmação da sua cultura, de sua liberdade relativa”, continua.”Isso é um elemento apropriado pelos homossexuais (especialmente homens que se relacionavam com outros homens) também desde o século 19.”Para o professor, que viveu dezenas de carnavais brasileiros, em 2025 reina uma atitude de mais tolerância aos homossexuais na sociedade e uma ampliação de espaço no próprio Carnaval, da Sapucaí a Olinda.Mas, como escreveu no próprio livro, “a reação das autoridades e do público tem oscilado entre a aceitação e a repressão, entre a curiosidade e a repulsa”.Não é raro encontrar nas redes sociais posts, na maioria em tom de humor, sobre haver muitos LGBTQIA+ no Carnaval — e de que não haveria mais espaço para os heterossexuais.”O movimento criou uma noção de visibilidade e ocupação dos espaços, mas que incomoda as pessoas que acham que quem tem direito a ocupar esses espaços são elas”, diz. James Green volta mais uma vez ao Brasil neste Carnaval, agora para desfilar pela escola de samba Terceiro Milênio, que traz ao carnaval de São Paulo o enredo “Muito além do Arco-íris”, sobre o movimento pelos direitos LGBTQIA+ no Brasil. Leia a seguir os principais trechos da entrevista à BBC News Brasil:BBC News Brasil – No início do século 20, segundo sua pesquisa, o Carnaval era um momento em que as pessoas LGBTQIA+, principalmente homens que se relacionavam com outros homens, podiam ser quem elas eram. Ao mesmo tempo, isso disfarçava um período muito mais complexo e violento para essa comunidade durante o resto do ano, fora do período carnavalesco. No Brasil de 2025, esse cenário complexo se mantém?James Green – Eu acho que reina hoje entre a maioria da população uma atitude de tolerância, aceitação e até identificação e abraços a pessoas LGBTQIA+. Um exemplo é a aceitação da parada LGBTQIA+ em São Paulo e das mais de 300 paradas em todo o país. Porém, ao mesmo tempo, ainda existe uma violência, uma agressividade. Isso foi incentivado nos últimos oito anos pela extrema-direita, que mobilizou parte da sua base no ódio contra as pessoas LGBTQIA+.Então, de um lado, há muito mais aceitação, não somente durante o Carnaval, mas ao longo do ano; ao mesmo tempo, existe essa violência. Infelizmente, isso é um fenômeno internacional, como foi visto agora, com o presidente [dos EUA] Donald Trump, que acabou decretar que as pessoas trans são proibidas de existir, não podem ter identidade, não tem direito à existência. Isso está acontecendo nos Estados Unidos e no Brasil há pessoas que gostariam de fazer o mesmo. Então, eu acho que nada está garantido. Mesmo com essa tal tolerância que eu estou notando, há grande possibilidade de um recuo ou de perder os avanços que houve nos últimos 40, 50 anos.BBC News Brasil – Mas o Carnaval, especificamente, segue sendo o momento de pessoas LGBTQIA+ transbordarem e colocarem para fora aquilo que se é?Green – Sim. Eu conheço vários homens que se autodeclaram heterossexuais, mas durante o carnaval elas beijam outros homens; ou pessoas que se declaram bissexuais, mas que estão transgredindo muito o padrão de vida que levam durante o resto dos dias do ano. Então, acho que existe um espaço para as pessoas se liberarem, ficarem mais à vontade, com novas maneiras de pensar no seu gênero, sua sexualidade durante o Carnaval, porque, teoricamente, tudo é permitido. Crédito, Editora UnespLegenda da foto, Pesquisa de Green para o livro começou nos anos 1990, quando ele voltou ao Brasil após morar no país por cinco anosBBC News – Essa ideia de que tudo é permitido, de transgressão e libertinagem no Carnaval é algo brasileiro ou a gente importou de outras partes do mundo?Green – É algo que existe em qualquer lugar que festeja o Carnaval, como o Caribe, onde a influência afrodescendente era muito forte e que, combinado com a cultura hispânica, cria um tipo de Carnaval diferente do Brasil, mas com essa libertinagem também, essa abertura. Também em Nova Orleans [nos EUA], de outra maneira, que tem a tradição de Carnaval francesa, mas também com essa possibilidade de uma libertação durante esses dias. Então, eu acho que não é somente o Brasil. Mas, no Brasil, isso vai reforçando estereótipos sobre o país, como se fosse um país super aberto, liberal, sem considerar o fato que é uma cultura muito conservadora em vários sentidos, apesar dessa liberdade que tem durante os dias do Carnaval. BBC News Brasil – No seu livro Além do Carnaval, o senhor escreve que o Brasil durante muito tempo passou essa imagem para o exterior de uma convivência pacífica com os homossexuais, como se fosse quase um paraíso para essa população. O Brasil ainda passa essa imagem?Green – Passa. E as pessoas que vão passar carnaval no Rio ou outro lugar, se não tiverem um inconveniente, um celular roubado, um assalto ou uma coisa desagradável, voltam promovendo o Carnaval como a maior festa do mundo. E, realmente, o Carnaval do Rio é uma das melhores festas do mundo, embora tenha carnavais muito especiais também em Salvador, Olinda, São Paulo. BBC News Brasil – Como o senhor mencionou, o Brasil, eleitoralmente, tem se mostrado um país muito conservador. Ao mesmo tempo, boa parte da população participa do Carnaval, inclusive muitas pessoas cristãs. O que explica essa tolerância nesses quatro dias? Ela é forçada?Green – Eu não sei dizer, porque não fiz uma pesquisa intensa sobre a opinião de pessoas que estão olhando os blocos. Eu não acho que os evangélicos estão brincando numa boa durante o Carnaval. Acho que eles estão em retiros, fazendo outras coisas e rezando para não serem tentados a um pecado. Acho que esse setor não está tolerante. Quem é tolerante é a pessoa evangélica que tem um filho ou filha gay, trans e lésbica. E a família tem que resolver: ou expulsar essa pessoa da casa, ou aceitar. E muitas vezes aceita.Mas acho que esse momento de liberdade é muito ligado ao fato de que o Brasil era um Estado baseado na escravidão. As pessoas escravizadas aproveitavam as festas religiosas católicas para poder ter uma folga, não trabalhar e ter uma certa afirmação da sua cultura, de sua liberdade relativa dentro desse momento, enquanto no resto do ano trabalhava duro, fosse na cidade ou no campo. Então, o Carnaval, nesse sentido, foi um alívio para as pessoas mais pobres. O carnaval do Rio, desde o século 19, era esse momento de fazer coisas que não se podia fazer durante o resto do ano. Então, acho que isso é um elemento apropriado pelos homossexuais também desde o século 19, se não antes.Crédito, Mario Tama/Getty ImagesBBC News Brasil – Então, talvez essa nossa libertinagem, entre aspas, no Carnaval vem desse país tão repressivo para certas populações?Green – Exatamente. De um lado, há essa sociedade católica conservadora – hoje em dia, católica, evangélica, conservadora- com uma valorização enorme da família nuclear, tudo isso, e do outro lado, esses momentos de escape, de liberdade, em que as pessoas aproveitam para se sentir mais relaxadas numa sociedade rigidamente hierarquizada e repressora.Mas isso também é complicado. Por exemplo, a maneira que a música de Carnaval valoriza a mulata, a mulher de várias origens raciais, reflete a mulher escravizada como um objeto de sexualidade, violada durante o período de escravidão.A imagem desse tipo de mulher cria um ícone nacional que, na verdade, no fundo, no fundo, representa uma série de desejos perversos da época do carnaval, da escravidão. Então, o Carnaval é muito complexo, não é uma coisa única. Há várias camadas de sentimentos e sentidos que estão embutidas na festaBBC News Brasil – Antes da nossa conversa, fiz uma busca nas redes sociais sobre o que as pessoas estavam falando sobre carnavais e LGBTQIA+ e encontrei vários comentários, principalmente de mulheres e muitos em tom de humor, reclamando que ‘só tem gay no carnaval’. Como você enxerga esse incômodo, mesmo disfarçado de humor?Green -É a noção da heteronormatividade, onde tudo que é considerado normal é hétero. Então, quem não é e foge dese padrão, é marginalizado.Acho que, de um lado, o movimento criou uma noção de visibilidade e ocupação dos espaços, mas que incomoda as pessoas que acham que quem tem direito a ocupar esses espaços são elas. Então isso é parte do rechaço que está sendo expressado por essas pessoas.Elas querem reafirmar o seu machismo e domínio do espaço. Nós, que não necessariamente nos encaixamos nessa realidade, somos incômodos, mesmo durante as brincadeiras de carnaval.Crédito, Philippe Le Tellier / Getty ImagesLegenda da foto, Baile no carnaval de 1988, no RioBBC News Brasil – Na cobertura do Carnaval gay do passado, a gente vê as fotos na imprensa da época basicamente de homens vestidos de mulher e dos bailes, principalmente para homens gays. Onde fica o papel das mulheres lésbicas, de homens trans? Não havia uma cobertura? Green – Nos anos 1950, começou a ter bailes de carnaval dirigido ao público LGBTQIA+, basicamente homens gays. A Manchete, que era a revista mais popular, sempre mandava os fotógrafos para tirar fotos das pessoas com fantasias, a maioria sendo homens com fantasias de mulher. E você criava no imaginário nacional a ideia de que os bailes eram só de travestis, de homens vestidos de mulheres. E não era a realidade.Quando eu fiz a pesquisa para o meu livro, eu tive acesso aos arquivos da Manchete, com fotos dentro dos bailes no Teatro São Luiz, na Praça Tiradentes. Pelas imagens, 95% das pessoas dentro do teatro estavam vestidas com roupa masculina, não com fantasia de mulher. Porém, a imagem que se criava era de que Carnaval era só de travestis. Mas para essas pessoas – homens querem se vestiam de mulher, que hoje em dia talvez a gente chamasse de trans, mas não tinha necessariamente essa identidade -Carnaval é fundamental. É um momento onde as pessoas podem se montar, mesmo pessoas que não estão com uma fantasia ou que tinham uma noção de querer manter essa apresentação pública ao longo do ano, mas que pelo menos queriam brincar com essas mudanças de apresentações de gênero durante o Carnaval. Isso existe muito, tanto para homens querendo vestir-se de mulher, para as trans que se sentem muito mais à vontade nesse momento sem a repressão, porque tudo é permitido entre aspas, e as lésbicas que também querem brincar disso.Como as mulheres lésbicas eram muito mais marginalizadas, sempre com menos acesso ao espaço público, o Carnaval é um momento privilegiado para elas organizarem blocos e brincar com sua companheira, suas amigas.Mas a visibilidade gay é muito maior, em parte porque os homens sempre ocuparam o espaço público. A sua paquera, sua maneira de encontrar com outros, também acontecia no espaço público, nas ruas da cidade. Então, eles são muito mais acostumados a ocupar esse espaço, enquanto as mulheres, por todas as restrições sociais, não têm necessariamente essa abertura de fazê-lo.Crédito, Augusto Malta/Acervo Instituto Moreira SallesLegenda da foto, Cortejo de corso o Rio, no início do século 20BBC News Brasil – O fato de a visibilidade na mídia das pessoas LGBTQIA+ na época estar muito relacionado ao Carnaval de certa forma atrelou esse grupo apenas à festa e “libertinagem”, atrapalhando o movimento de ser visto como algo “sério” na busca de direitos? Green – Acho que hoje em dia, como estamos em tudo quanto o lugar, cada vez mais visível, o Carnaval é um momento muito especial para essa celebração, porque, na verdade, independentemente da sua capacidade de ser assumido para a sua família, todos os dias você enfrenta agressividade, comentários insensíveis.Então, o Carnaval ou a parada são momentos de afirmação, de dizer que “estamos aqui”, pelo menos nesse espaço, com a liberdade que merecemos todos os dias do ano. Então, é uma afirmação muito forte ainda para as pessoas, mesmo as pessoas como eu, que estão assumidas para todo mundo há muitos anos. É um espaço especial onde me sinto muito mais livre, então acho que isso é importante.Quando surge o movimento, eu era mais da linha política, aquela que, para fazer uma coisa, tem que ter uma faixa, com reivindicações claras, palavras de ordem. E eu percebi que isso não é a maneira que o brasileiro e a brasileira entendem a sua realidade. Nossa realidade é afirmar nossa alegria contra essa violência, essa agressividade, que enfrentamos todos os dias. [Festejar] é uma maneira de lidar com issoEntão, nossas paradas, que têm um caráter reivindicativo, também é uma afirmação ao nosso direito de existir, que é uma reivindicação elementar para qualquer pessoa. Essa afirmação é super politizada. Claro, não é contra tal lei ou a favor de tal candidato, mas é para transformar a sociedade, obrigar a sociedade se transformar com nossa presença, nossa afirmação.



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