Lixo nas praias: por que tem tanto resíduo estrangeiro na costa brasileira

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    Crédito, Cristiane SantiagoLegenda da foto, Água chinesa Nongfu Spring tem sido encontrada em várias praias brasileiras, mesmo sem ser vendida no país.Article informationAuthor, João FelletRole, Da BBC News Brasil em São PauloHá 27 minutosUma garrafa plástica com rótulo vermelho e a imagem de um lago com montanhas ao fundo está virando parte da paisagem em vários balneários do país — inclusive em praias idílicas de grande apelo para o turismo.A embalagem, porém, só é fabricada do outro lado do mundo, na China.A água mineral Nongfu Spring é uma das maiores marcas chinesas do setor de bebidas. Seu dono, o empresário Zhong Shanshan, já ocupou o posto de homem mais rico da China.Apesar de não ser vendida no Brasil, a embalagem da água chinesa virou um dos itens mais comuns encontrados no lixo que polui as praias brasileiras.Segundo Alexander Turra, professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em poluição marinha, as embalagens foram descartadas por navios.”Muitos navios jogam no mar as embalagens de produtos consumidos por suas tripulações”, diz Turra. Como a China domina o comércio marítimo global, o lixo chinês também está se espalhando pelos mares — e há cada vez mais sinais disso no Brasil, prossegue o professor. As sucessivas aparições da água Nongfu Spring no litoral brasileiro são uma consequência desse processo.Crédito, João AcáciaLegenda da foto, Leitor Felipe Peixoto recolhe garrafa de água Nongfu Spring em Itaparica (BA).A BBC News Brasil teve uma amostra do problema após publicar, em 9 de fevereiro, um vídeo sobre o lixo estrangeiro encontrado em uma praia de Natal, no Rio Grande do Norte.Postado no Instagram, o vídeo mostrava embalagens de produtos achados em uma curta caminhada pela praia do Segredo, vizinha ao Parque das Dunas.Vários leitores então enviaram à BBC vídeos e fotos de produtos estrangeiros que eles também disseram ter encontrado em praias brasileiras.A água Nongfu Spring foi o item achado com maior frequência, com registros dela em praias da Bahia, Ceará, Maranhão, Paraná e Rio Grande do Norte.”Essa é a que mais tem, disparado”, disse, apontando para uma embalagem de Nongfu Spring, o leitor Bruno Campos, em vídeo gravado na praia do Preá, em Cruz (CE).Campos tem um perfil no Instagram (@LimpezadePraias) onde registra suas visitas a praias brasileiras para coletar lixo e enviá-lo à reciclagem. Ele encontrou embalagens de Nongfu Spring em várias praias diferentes – inclusive no Parque Nacional de Jericoacoara (CE), um dos balneários mais badalados do país.Na ilha de Itaparica (BA), o leitor Felipe Peixoto também encontrou uma garrafa da Nongfu Spring e traduziu seu rótulo com a ajuda do celular. “É naturalmente derivada de águas profundas do lago Wan”, ele leu a tradução, “uma zona de proteção de fontes de água de primeiro nível, com uma área de 370 quilômetros quadrados”.”É, mas a garrafinha veio parar aqui, numa pequena ilha com só 1 quilômetro de raio”, prosseguiu Peixoto, lamentando o achado.Play video, “Lixo estrangeiro no litoral do Brasil: por que vemos cada vez mais nas nossas praias?”, Duration 8,3008:30Legenda do vídeo, Lixo estrangeiro no litoral do Brasil: por que vemos cada vez mais nas nossas praias?’Mais altos padrões de sustentabilidade’Crédito, Eco Local BrasilLegenda da foto, Embalagens encontradas na praia de Pontal do Sul, no Paraná. Em seu site, a Nongfu Spring diz ser “a maior fornecedora de água engarrafada da China, ocupando o primeiro lugar em market share e sendo uma das 20 principais companhias de bebida” do país.A NongFu Spring afirma ainda que “possui a linha de produção de água potável mais avançada do mundo”, e que suas operações seguem os “mais altos padrões de qualidade e sustentabilidade”.A filosofia da empresa é “nunca use água encanada”, e a companhia também produz chás e sucos.Ela foi fundada pelo empresário Zhong Shanshan em 1996, em Zhejiang, na China. Apelidado de “Lobo Solitário”, Zhong disputa o posto de homem mais rico da China com Ma Huateng, criador do principal aplicativo chinês de mensagens, o WeChat.Em fevereiro de 2025, um ranking da agência de notícias Bloomberg mostrava Ma e Zhong quase empatados, com fortunas de US$ 56,2 bilhões (R$ 320,7 bilhões) e US$ 56,1 bilhões (R$ 320,1 bilhões), respectivamente.A BBC perguntou à Nongfu Spring se a empresa sabe que suas embalagens estão poluindo praias no Brasil — e se a companhia tem alguma iniciativa para reduzir a poluição por plástico no mundo.Mas a Nongfu Spring não respondeu.Em um anúncio publicitário recente, a empresa diz que 99% dos materiais que usa em embalagens plásticas são recicláveis. E afirma que, em 2021, a companhia reciclou quase 2 milhões de galões de água, transformando-os em acessórios para computadores, peças de carros e outros produtos.”Estamos colaborando com associações industriais, universidades e institutos de pesquisa para explorar caminhos sustentáveis adicionais para a reciclagem de embalagens de alimentos”, diz um executivo da empresa, no anúncio.A Nongfu Spring talvez seja a marca asiática mais comum nas praias brasileiras, mas está longe de ser a única. O vídeo da BBC sobre o “cemitério” de lixo asiático em uma praia de Natal recebeu mais de 6 mil comentários, muitos deles apontando a existência do mesmo problema em outras praias do país.Imagens de leitores com os itens que eles encontraram revelam uma grande variedade de produtos fabricados no exterior no lixo que polui praias brasileiras. A lista inclui itens feitos no exterior mas que pertencem a marcas conhecidas no Brasil, como Coca-Cola, Fanta e Pepsi.Com base nas mensagens, a BBC elaborou um mapa com todos os municípios onde leitores disseram já ter encontrado lixo estrangeiro. Vários municípios foram citados mais de uma vez.Os lugares mencionados abarcam 15 dos 17 Estados brasileiros que ficam no litoral. Os registros começam na região Norte, em Algodoal (PA), e chegam ao extremo sul do país, no Chuí (RS).Também foram mencionados arquipélagos e ilhas reconhecidos como santuários ecológicos — como Fernando de Noronha (PE), Ilha do Cardoso (SP) e Ilha do Mel (PR).Os únicos Estados litorâneos sem registros foram Amapá e Sergipe.De onde vem o lixo?Desde 1972, resoluções internacionais proíbem o descarte de lixo não orgânico no mar.Mesmo assim, segundo o oceanógrafo da USP Alexander Turra, muitos navios violam as regras.Ele diz que muitas embarcações jogam no mar produtos consumidos por sua tripulação, como itens de limpeza, garrafas e embalagens de alimentos.Isso acontece porque, segundo ele, muitos navios não separam o lixo orgânico do lixo plástico, descartando todos os resíduos no mar para evitar o mau cheiro.Há ainda navios que, segundo Turra, jogam o lixo no mar para economizar em uma taxa que os portos cobram para coletar os resíduos. Quanto maior a quantidade de lixo coletado, maior a taxa.Contatada pela BBC, a Associação de Donos de Navios Asiáticos (ASA, na sigla em inglês) disse considerar “altamente deplorável” o descarte de lixo na costa brasileira e promover “práticas de navegação ambientalmente responsáveis”.A ASA diz representar 52% da frota de navios mercantes do mundo.No Brasil, a missão de combater a poluição em praias e águas costeiras cabe a diferentes órgãos de governo.O órgão responsável por definir diretrizes sobre taxas e tarifas em portos é a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), ao passo que a regulação do setor portuário está a cargo do Ministério de Portos e Aeroportos.A Antaq não respondeu aos questionamentos da BBC. Já o ministério disse que os portos brasileiros seguem “as melhores práticas globais” sobre gestão do lixo.Questionado sobre a proposta de estabelecimento de uma taxa fixa para o descarte de lixo por navios, o ministério disse que as normas atuais sobre tarifas seguem “critérios técnicos e econômicos”, mas que mantém “diálogo com agentes do setor para identificar oportunidades de aprimoramento dentro do marco regulatório existente”.O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) é o órgão federal responsável pela proteção ambiental em praias e zonas costeiras.O Ibama não respondeu à BBC se adota medidas contra o descarte de lixo por navios, mas disse que “a competência para efetuar a limpeza rotineira das praias é municipal”.A Marinha, que tem a atribuição de fiscalizar navios em águas brasileiras, disse que “fiscaliza nossos mares e rios de forma ininterrupta e, quando toma conhecimento de infrações ambientais de sua competência, promove a instauração de processo administrativo ambiental, a fim de punir os infratores”.Segundo a Marinha, mudanças legais no início dos anos 2000 ampliaram as punições para embarcações que poluam o mar, “com multas que podem chegar até R$ 50 milhões”.O que fazer?Turra diz que diferentes ações podem ajudar a combater o problema.A primeira seria cobrar taxas fixas para a coleta de lixo nos portos. Assim, navios que joguem o lixo no mar não teriam como economizar na taxa.Outra ação seria monitorar os produtos consumidos nos navios, comparando o volume de itens comprados em um porto com a quantidade de lixo entregue no porto seguinte.Discrepâncias indicariam que o navio descartou o lixo no mar e deveria ser multado, defende Turra.Mas ele afirma que a adoção dessa medida precisaria do aval da Organização Marítima Internacional (OMI), entidade que regula o comércio marítimo global e tem sede em Londres.Questionada pela BBC se considera adotar a medida, a OMI não respondeu até a publicação desta reportagem.Em mensagem anterior, a entidade disse atuar há quase 30 anos no combate ao lixo marítimo e disse que o Brasil é um dos participantes de seu programa GloLitter.Financiada pela Noruega, a iniciativa busca difundir boas práticas e treinar agentes públicos para o combate ao lixo plástico nos oceanos.Crédito, GettyLegenda da foto, Organização Marítima Internacional (OMI) regulamenta o comércio marítimo global.Turra diz ainda que os armadores —- empresas que operam os navios cargueiros — também devem se responsabilizar pelo problema.Ele cobra as empresas a equipar os navios com aparelhos de compactação e reciclagem dos resíduos gerados nas viagens.E Turra defende o engajamento de todas as empresas envolvidas na produção e venda dos itens que viram lixo nos mares —- da petrolífera que extrai a matéria-prima do plástico até as fornecedoras dos navios, passando pelas grandes marcas dos setores de bebidas, alimentos e produtos de limpeza.Segundo ele, cada empresa nesse circuito pode definir que só venderá seus produtos para companhias e armadores certificados por boas práticas — garantindo, assim, que todo lixo gerado nessa cadeia terá o destino adequado.”Assim você cria uma forma de elas [empresas] se diferenciarem do mainstream”, ele diz.Por fim, Turra cobra uma maior repressão internacional a navios da shadow fleet (frota sombra), como são conhecidos os cargueiros que não seguem normas de navegação e são operados por empresas de fachada.Segundo ele, as embarcações são normalmente usadas por países sob sanções internacionais — como Irã, Rússia e Coreia do Norte — para driblar as restrições a seu comércio, já que os navios desligam seus aparelhos de rastreamento.Um navio grego pertencente a essa frota foi apontado como o principal suspeito pelo grande vazamento de óleo que atingiu praias do Nordeste do Brasil, em 2019.Navios com essas características podem ser multados pela Marinha, responsável pela fiscalização de embarcações em águas brasileiras.Mas, como destaca Turra, eles podem viajar por águas internacionais ao largo da costa brasileira — e o lixo que descartam no trajeto pode alcançar o Brasil levado por correntes marítimas.Mapa feito por Caroline Souza, Equipe de Jornalismo Visual da BBC News Brasil.



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