Escolas do Estado retornarão com aulas 100% presenciais e psicóloga fala do impacto em jovens

Há um ano e sete meses com aulas presenciais parcialmente suspensas, as crianças e adolescentes do ensino público do Estado retornarão às escolas na próxima segunda-feira (18).

O alento no retorno à convivência social para os pais e alunos poderá evidenciar possíveis transtornos psicológicos adquiridos durante o período de isolamento da pandemia da Covid-19. É o que diz a psicóloga Bruna Macedo.

Em entrevista ao MidiaNews, a especialista em psicologia clínica e escolar para crianças, apontou alguns dos danos que as crianças e adolescentes podem manifestar após o retorno.

“Eles [crianças e adolescentes] passaram um bom tempo sem sociabilizar. Essa nova forma de estudo, que a pandemia trouxe, gerou muito estresse, irritabilidade, falta de atenção. Algumas crianças também apresentaram depressão, ansiedade. Com o retorno às aulas, terão alguns reflexos no dia a dia”, afirmou.

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Os reflexos aos quais a especialista se refere são no campo emocional. Segundo ela, podem ser diagnosticados como estresse pós-traumático e ansiedade generalizada. Já nos adolescentes, os reflexos podem vir ao longo da vida adulta, se não tratado neste momento.

Eles [crianças e adolescentes] passaram um bom tempo sem sociabilizar […] Algumas crianças também apresentaram depressão, ansiedade. Com o retorno às aulas, terão alguns reflexos no dia a dia

A psicóloga ainda comentou sobre sinais que os país devem ficar atentos e deu dicas de como melhorar a relação entre pais, professores e alunos e tempo usado pelos filhos nas redes sociais.

Confira os principais trechos da entrevista:

MidiaNews – A Rede Estadual de Ensino retoma as aulas 100% presenciais nesta segunda-feira (18). Como deve ser o acolhimento aos alunos neste primeiro momento?

Bruna Macedo – O mais importante é escutá-los, dar oportunidade de falar, prestar atenção no que querem. Afinal de contas, quase dois anos em casa pode ter gerado muitos medos. Claro, que eles têm a felicidade em voltar, porque para a criança e o adolescente a escola é um ambiente de socialização, mas como a família influencia nessas questões de medo e algumas podem ter vivenciado alguma perda o momento é de acolhimento. De rodas de conversa, de escuta.

MidiaNews – As famílias também devem ouvir e ficar atentas ao comportamento das crianças e adolescente?

Bruna Macedo – Com o retorno às aulas, é preciso dar apoio. Eles perderam muita matéria e isso também gera um medo, no sentido de como será esses dias perdidos. Tem ainda o medo da contaminação. Então, a família também tem que dar esse apoio de escuta e entendimento.

Haverão alunos que vão se opor em voltar, mas terão que voltar. Então, tem que ter conversa, explicações e apoio. Um momento de conexão com a criança e adolescente.

MidiaNews – Além dos motivos já citados, quais seriam os motivos para essas crianças terem alguma resistência ao retorno às aulas?

Bruna Macedo – O medo de contaminação, outras por terem se acostumado a ficar em casa, por não terem aquela rotina fixa da escola. Porque a escola tem horários das aulas, horários de intervalos e em casa já não é assim, em especial nas famílias em que os pais já retornaram ao trabalho. A criança fica em casa sem ter alguém colocando regras e, de repente, volta para um ambiente de regras. Mas acredito que a grande maioria vai querer voltar, sim. Porque eles sentem muita falta de ver os amigos, de socializar, de ter a matéria dada pelo professor.

Divulgação

Bruno Macedo – Psicóloga
Especialista apontou que crianças e adolescentes poderão sentir retorno, devido a “um ambiente de regras”

MidiaNews – Assim como o ensino remoto causou grande impacto na vida das crianças e adolescentes, esse retorno abruto também pode causar algum prejuízo?

Bruna Macedo – A meu ver só traz benefícios, porque ele vai voltar a ter o dia a dia de volta, a normalidade, voltar a ter regras, convívio social. Nesse momento, tanto a criança e adolescente precisam estar em volta dos seus amigos para se reconhecerem, entenderem seu espaço, se sentir parte. Isso tudo constrói a personalidade para se tornarem adultos e entenderem o que gostam ou não, e é preciso passar por esse momento, que até então estavam sendo privados.

MidiaNews – Acha que as crianças e jovens terão dificuldades para recuperar a conexão emocional que havia antes da pandemia?

Bruna Macedo – Pelo meu trabalho em consultório e escolas, eu vejo que terão dificuldades, sim. Eles passaram um bom tempo sem sociabilizar. Essa nova forma de estudo, que a pandemia trouxe, gerou muito estresse, irritabilidade, falta de atenção. Algumas crianças também apresentaram depressão, ansiedade. Com o retorno às aulas, terão alguns reflexos no dia a dia.

Por exemplo, eles poderão ter dificuldades em lidar com a frustração, porque quando estão entre amigos cada um quer fazer a própria vontade e pode acontecer as frustrações. Nesse momento, os adolescente e crianças terão dificuldades em lidar com as próprias emoções, sim.

Haverá de ter um novo aprendizado. Por isso professores e familiares precisarão de mais paciência e mais presença. Porque eles perderam muito do convívio social. Eles vão ter que reaprender isso com o retorno.

MidiaNews – De que forma o distanciamento dos colegas de classe afeta o desenvolvimento de uma criança?

Bruna Macedo – As crianças, hoje, principalmente de três a seis anos, foram as mais prejudicadas. Porque estão na fase de maior aprendizagem social. Pensa em uma criança de 3 anos que agora que vai à escola e entenderá que não é uma criança sozinha, e que existem outras crianças ao redor dela. Então, vão ter prejuízos, pode ser uma criança um pouco mais irritada. Nessas crianças menores, podem ter pedido até o desenvolvimento da fala, vão demorar um pouco mais para falar.

Já os adolescentes vão ter essa parte do estresse, ansiedade e depressão, devido ao afastamento do convívio social. Eles terão que se descobrir novamente nesse meio social. E vão ter que aprender a lidar com a raiva, agitação, ter o entendimento de que a gente não pode tudo.

Agora, eles terão que retornar ao convívio social e alguns podem ter resistência de sair de frente às telas, e como estavam antes. Eles terão um prejuízo grande, mas com certeza conseguem se desenvolver com apoio da escola, família, vão conseguir recuperar esse tempo perdido, pelo menos nas questões sociais e emocionais, mas terá que ter esse trabalho.

Alguns conseguem passar por isso sozinhos, mas, infelizmente, uma grande parcela da população precisará de ajuda, porque senão teremos prejuízos emocionais ao longo de vários anos.

MidiaNews – Quando fala de prejuízos emocionais, ao que se refere?

Bruna Macedo – Dessa inabilidade de lidar com as próprias emoções. Por exemplo, da questão da ansiedade, que já estava em alta antes da pandemia, algumas crianças e adolescente vão lidar com estresse pós-traumático.

Por exemplo, sentir raiva e não saber o que fazer com essa raiva, com a tristeza, com as perdas e ganhos do dia a dia… Isso foi pedido em dois anos e não conseguiremos recuperar tão rápido.

MidiaNews – Será complicado esse retorno sem os meios eletrônicos? Que dica dar aos pais?

Bruna Macedo – Vai ser complicada as telas disponíveis a todo o momento. A gente sabe que não era só para fins educativos. Por exemplo, um adolescente que está em frente ao computador assistindo aula, tem acesso a outras coisas além da aula.

Ou seja, a atenção estava totalmente difusa, ele podia navegar pela internet. E agora terá que volta à atenção concentrada, que é a do professor em frente a ele. Então, há a possibilidade de ter dificuldade de concentração. O adolescente por si só já tem essa dificuldade, agora vai ter um pouco mais. E é por isso que os professores terão que ter um pouco mais de paciência para que os adolescentes retornem a posição de atenção concentrada.

MidiaNews – E há algum tipo de exercício ou prática que os adolescentes podem fazer para retornar mais fácil ao foco?

Bruna Macedo – Nós adultos temos dificuldade em lidar com o tempo de tela, imagina um adolescente que está em fase de aprendizado. O ideal é que nas escolas que não utilizam telas, consigam evitar o uso de celular. Não levar o celular para escola é um dos pontos principais. Porque estando disponível, ele vai tentar olhar e vai se distrair um pouco mais fácil.

E isso vale também aos adultos: se vai estudar ou trabalhar, deixem o celular em outro cômodo.

Agora, tem escolas que utilizam o computador dentro da sala de aula, aí o professor terá o trabalho de cuidar do que o aluno está visualizando na tela.

MidiaNews – Limitar o acesso às redes sociais, poderia ser alternativa?

Bruna Macedo – Isso. A gente não pode esperar que o adolescente e a criança saibam gerir o tempo deles. Eles não sabem. E a gente cria essa expectativa de que ele vá conseguir fazer isso sozinho, mas não vai.

O que digo para as famílias que atendo é que é preciso entender como usa e quanto tempo. Porque, às vezes, o tempo não é o principal, mas o conteúdo acessado. E assim, fazer acordo com os filhos: de tempo, de conteúdo acessado. Aí, retorno na questão da conversa. É preciso conversar, entender. Pode até traçar um plano de diminuição de uso de eletrônicos, mas tudo isso conversado.

Zerar o uso de eletrônicos acho muito difícil, mas diminuir em uma grande porcentagem dá, com certeza, desde as criancinhas até os adolescentes. Mas dá trabalho, porque é preciso conversa, conscientização, entender quanto tempo fica em frente as telas, para que ele usa as telas. Então, dá trabalho mas o resultado é muito bom.

MidiaNews – E quais seriam esses resultados?

Bruna Macedo – Tanto ao aprendizado, e esse é o desenvolvido dentro de casa, com a própria família, quanto das emoções, mesmo. Porque o computador e a tela, em si, principalmente para as crianças traz muita irritabilidade. Crianças que ficam assistindo muito desenho, muita música, muito vídeo, normalmente são mais nervosas, irritadas e a gente só consegue perceber isso quando consegue diminuir a exposição.

Então, enquanto não há a diminuição acha que está tudo bem, quando consegue diminuir você vê que a criança muda.

E essa questão da socialização, em especial para o adolescente, é muito importante. O adolescente já se isola um pouco, eles já ficam um pouco mais no quarto. Quando tem a tela, se isola mais ainda, se afastando da família, em um momento em que a família deveria estar mais presente. Por isso, digo que é preciso conversar sobre o tempo de tela e o principal que é o conteúdo que é acessado. Não pode deixar que eles assistam tudo o que quiserem,. É preciso uma gestão de conteúdo.

MidiaNews – E aí, os pais podem dar o exemplo, e saírem um pouco das telas também?

Bruna Macedo – Nós adultos não temos essa consciência e habilidade de saber quanto tempo ficamos expostos às telas e nos perdemos no tempo, imagina os adolescentes e as crianças. Então passa, sim, por nós refletirmos o uso. Quanto tempo a gente fica, o que acessamos na frente deles, o que está assistindo na televisão e ele está ali do seu lado assistindo junto. Afinal de contas, a educação é muito mais pelo exemplo, do que pela fala.

MidiaNews – Além dessa lacuna no aprendizado, que tipo de problemas esse um ano e meio de afastamento da escola pode trazer às crianças no futuro?

Bruna Macedo – O prejuízo maior é no campo das emoções, mesmo. As crianças podem carregar essa questão da ansiedade para a vida dela toda. Às vezes, alguma situação na vida adulta vai remeter ao que vivenciou e ele terá uma experiência de ansiedade generalizada. Por isso a gente fala que os reflexos serão lá na frente.

Talvez a gente pense: ‘A criança passou pela pandemia’. Mas lá na vida adulta pode ter uma ansiedade generalizada e não vai saber de onde veio, mas veio das vivências que teve na pandemia.

Imagina quantos meses foram passados durante a pandemia e ela foi privada de viver aquela idade. Por que se ela tem 15 anos, 18 anos, e não pode viver essa fase da vida, acaba por privar de sentir certas emoções que a gente só vive em certa idade. Se ela perder um pai, a mãe, avós ou perdeu alguém da família. Ou, às veze,s não teve uma perda, mas alguém próximo perdeu alguém.

Então, os reflexões serão a longo prazo. Pode dar estresse pós-traumático, ansiedade generalizada e a depressão. Infelizmente, não veremos isso nesse momento e dá a impressão de “estar tudo bem”. Mas lá dentro não está nada bem e isso se refletirá na vida adulta ou no final da adolescência. E por isso é preciso desse cuidado agora, de um cuidado com todos, não só com aqueles que demostram que não estão bem.

MidiaNews – Os adultos esperam uma maturidade dos adolescentes que, às vezes, ele não tem, não é?

Bruna Macedo – Isso. Eles demostram aos adultos como se fossem autossuficientes. Às vezes, você vai ajudar e eles não aceitam. Dizem: “Eu sei o que eu estou fazendo”. Mas nós temos que enxergar que eles estão em formação.

E podem dizer: “Mas o meu filho adolescente não quer conversar”. É preciso também se mostrar disponível, quando ele vier contar algo, escutar. Os pais tem mania de contrapor, de tentar revolver o que o adolescente está te contando, e às vezes ele só quer contar. É preciso ter habilidade do momento de falar e de escutar.

MidiaNews – É preciso um tempo para que as crianças e adolescentes possam se readaptar às aulas presenciais?

Bruna Macedo – É muito individual. Por exemplo, a adaptação de uma criança que nunca foi à escola falamos que tem até um mês e meio para estar adaptada. E os adolescentes vão penar um pouco mais. Agora, terão horário de acordar. Então, a adaptação será muito individual. Vai acontecer, mas provavelmente pode levar um tempo maior.

MidiaNews – Recentemente, a senhora chegou a falar que passou a diagnosticar mais casos de ansiedade nas crianças e adolescentes em razão da mudança na rotina. Poderia detalhar como essa ansiedade tem se manifestado?

Bruna Macedo – Um dos sinais claro é roer unhas, machucando o cantinho do dedo, às vezes deixando até feridas. O choro sem motivo aparente, são alguns sinais nas crianças. Porque como eles não têm o pensamento elaborado, como “eu estou triste por conta disso”, “sinto ansiedade, por isso”, elas acabam descontando no próprio corpo.

Um sintoma também que não é claro, é a criança ir muito ao banheiro. Em uma hora, vão 10, 15 vezes no banheiro fazer xixi. Isso é ansiedade.

MidiaNews – E nos adolescente essas mesmas manifestações?

Bruna Macedo – No adolescente pode ter aceleração no coração, falta de ar, aperto no peito, tremor, frio na barriga. Esses são sintomas de ansiedade. Pode ter a sensação de que vai morrer, de que vai acontecer alguma coisa com você. A criança não, ela demostra isso com o choro.

Outro ponto de alerta que mostram que as crianças e até mesmo os adolescentes podem estar com dificuldade de gerir suas emoções é sempre pensar sobre si mesmo de forma negativa ou crítica, sempre achar que coisas ruins irão acontecer, só focar nas coisas que dão errado, acreditar que não vai conseguir lidar com situações do dia a dia.

A família não precisa passar por isso sozinha, ela pode e deve procurar ajuda. Às vezes, a gente acha que vai conseguir sozinho, mas em muitas situações a ajuda de um psicólogo faz toda a diferença para passar por isso de uma forma menos traumática para família. Não precisa esperar chegar no limite para procurar ajuda. Se procurar logo no início, tudo se resolve numa forma com menos sofrimento.