Mato Grosso vive nos últimos dois meses um cenário ainda pior em relação à pandemia da Covid-19. O Estado já acumula mais de 300 mil infectados e 10 mil mortos pelo vírus. Apesar do crescente número de pessoas que conseguem se curar da doença, outro quadro preocupa especialistas da saúde: as sequelas que ficam após a pessoa contrair a doença.

Em entrevista ao MidiaNews, o especialista em clínica geral Marcelo Sandrin relatou de além de prejudicar diversas áreas do corpo humano, as sequelas em pacientes que tiveram Covid-19 podem ser irreversíveis, como uma doença crônica.

“Nós temos casos prolongados e imaginamos que muitas pessoas terão sequelas e que poderão se transformar com o tempo em irreversíveis”, afirma.

O médico alertou, aindam que o vírus não prejudica só o pulmão dos pacientes sequelados, mas também podem afetar áreas neurológicas e, inclusive, causar trombose em casos mais graves.

Infelizmente, com tudo que estamos vendo hoje é possível prever que teremos uma sobrecarga continuada no sistema de saúde
“[…] Temos um número muito grande de possibilidade de sequelas, neuropatias, dores cronicas de membros inferiores, cansaço crônico, existe a possibilidade de sequelas no sistema nervoso central, como a manutenção da perda do olfato e da gustação, problemas cognitivos”, relata.

Confira a entrevista na íntegra:

MidiaNews – Em seu consultório, tem sido comuns relatos de pacientes já curados com algum tipo de sequela?

Marcelo Sandrin – Sequelas constituídas nós não temos. Nós temos casos prolongados e imaginamos que muitas pessoas terão sequelas e que poderão se transformar com o tempo, em irreversíveis. Muitas pessoas demoram cerca de três meses para limpar o pulmão após a doença. Então, é extremamente importante que o diagnóstico seja feito cedo e que o tratamento seja instituído de imediato.

MidiaNews – Quais são as sequelas mais comuns?

Marcelo Sandrin – Nós tememos muito pelos pacientes que já tiveram tuberculose, pacientes bronquíticos e asmáticos crônicos, fumantes, que podem agravar o seu quadro.

No entanto, também temos um número muito grande de possibilidade de sequelas, neuropatias, dores crônicas de membros inferiores, cansaço crônico. Existe a possibilidade de sequelas no sistema nervoso central, como a manutenção da perda do olfato e da gustação, problemas cognitivos.

Não se tem ainda casos de lesão cardíaca, mas talvez estudos podem descobrir sobre isso com, por exemplo, casos de miocardiopatia dilatada. Porém existem casos de miocardite, de infarto agudo no miocárdio e existem também quadros de ataque ao fígado e lesão renal grave ou agravada. Há a necessidade de que a gente fique muito alerta.

MidiaNews – Muitas pessoas têm relatado problemas neurológicos, falhas de memória, também queda de cabelo. Por que isso acontece?

Marcelo Sandrin – Porque existem diferentes tipos de agressão. Lembremos que essa patologia leva a falta de oxigenação e o cérebro é dependente do fluxo contínuo de oxigênio e glicose. Essa doença também consegue trazer instabilidade hemodinâmica, por isso pode não haver a chegada dos nutrientes e oxigênio por circulação inadequada.

E após tudo isso nós temos outro grande problema, que é você ter a produção de substâncias que levarão a coagulação de sangue no cérebro, a famosa trombose. Tanto que hoje a classificação da corona virose mudou, ela já está quase certificada como uma virose trombótica, uma febre virótica trombótica. Porque os casos graves passam pela coagulação do sangue dentro dos vasos do próprio tecido dos órgãos mais afetados, tanto que hoje faz parte do bom tratamento o uso de anticoagulantes.

Antes da pandemia, a média consulta médica clínica dava uma despesa de aproximadamente R$140. Hoje já está em quase R$ 400
Nós demoramos cerca de 6 meses no início da doença para aprender e ver que essa doença causava esse problema e ai começou um novo momento no tratamento. Precisa ser lembrado que essa é uma doença nova, não adianta as pessoas quererem adivinhações ou que façamos milagres, precisamos ter paciência, clareza e, especialmente, não brigar por causa de uma doença. Só maluco da esquerda e da direita conseguiram nos levar a um paradoxo desse, em vez de estarmos todos focados e lutando para irmos em frente.

MidiaNews – Como deve ser o acompanhamento de uma pessoa que teve uma Covid grave?

Marcelo Sandrin – Estamos recebendo um número grande de pessoas regressas, graças a Deus. Inicialmente ele será avaliada quinzenalmente, depois mensalmente e em um período de 6 meses, se nesse tempo houver a regressão de todos os sintomas e se não forem detectadas sequelas duradouras os pacientes poderão voltar a viver a vida normalmente.

Agora vão ter pacientes que ficarão como pacientes crônicos, aqueles que tiveram sequelas no pulmão vão ter que ir regularmente ao pneumologista e ao clínico geral, na verdade mais ao clínico geral porque não temos pneumologistas suficientes para atender.

MidiaNews – Existe o risco de termos uma grande demanda por reabilitação, tanto na rede pública quanto na privada, por causa destas sequelas da Covid?

Marcelo Sandrin – Eu falo que o campo da clínica médica e da pneumologia são boas especialidades a se pensar no futuro. Vão ser necessários muito profissionais para acompanhar esses casos. Assim como estamos tendo hoje uma busca pela especialização no campo da reabilitação de pacientes com Covid-19, como a fisioterapia, a nutrição.

Infelizmente, com tudo que estamos vendo hoje é possível prever que nós teremos uma sobrecarga continuada no sistema de saúde, tanto público quanto privado e convenial.

MidiaNews – Apesar da oportunidade de especialização, essa sobrecarga continuada na área da saúde pode acarretar problemas? Se sim, quais?

Marcelo Sandrin – Com aumento dos gastos para dar conta dos pacientes haverá aumento do convênio e também no preço das parcelas dos planos de saúde, empresariais ou individuais. E no SUS (Sistema Único de Saúde) teremos um rombo maior que já tem.

Então é um problema que irá nos assombrar durante um bom tempo, teremos sequelas econômicas também, não só sequelas agudas que temos hoje. Teremos um agravamento da falta de recursos, de insumos profissionais na área pública e um aumento de custos na iniciativa privada.

Na perspectiva dos grupos – de estudo – que participo, nós imaginamos que vamos ter um pouco mais de sossego nas férias de julho de 2022 ou começo de 2023, com a vacinação cumprida
Hoje as diárias de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) aumentaram demais, paciente de Covid-19 é muito caro e paciente sequelado do vírus é caro também. Isso é algo que está trazendo preocupação para todos, tanto para os pacientes quanto para profissionais e gestores da área de saúde.

Nós teremos no ano que vem um aumento impressionante do custo de medicina de um modo geral.

Antes da pandemia a média consulta médica clínica dava uma despesa para o plano de saúde de aproximadamente R$140, isso com exames, consulta, raio-x. Hoje, já está em quase R$ 400.

O preço da consulta já subiu 3 vezes, e isso deverá ser ressarcido ao plano de saúde, e o SUS vai precisar de mais dinheiro, isso é um problema muito sério. Vai encarecer muito.

MidiaNews – Acredita que esta pandemia está próxima de acabar? Acha logo voltaremos para a normalidade?

Marcelo Sandrin – A vigilância pode ser até necessariamente eterna. Nós não podemos garantir de que não vamos precisar continuar usando máscaras, que as medidas de distanciamento não vão continuar por tempo prolongado, porque elas são eficazes também.

Não é porque você está vacinado, que está com imunização razoável que não poderá pegar o vírus. Tem cepas variantes, tem uma série de coisas que ainda vão vir por ai. Então precisamos ter muito cuidado.

Na perspectiva dos grupos – de estudo – que participo, nós imaginamos que vamos ter um pouco mais de sossego nas férias de julho de 2022 ou começo de 2023, com a vacinação cumprida e as pessoas tendo consciência, mas é imprevisível.

O pessoal não para. Houve uma certa liberação nos decretos e em seguida parecíamos que estávamos em festas, locais lotados, ninguém usando máscara. Parece gozação, a gente eve com muita tristeza o que está acontecendo.

MidiaNews – O senhor teria algum recado para essas pessoas que voltaram a agir como se não houvesse uma pandemia?

Marcelo Sandrin – O recado que eu poderia dar chega a ser cansativo. Mas se nós nos unirmos e nos cuidarmos e fizermos a nossa parte vamos ter uma resposta muito melhor e maior. Já sofremos um ano e quatro meses, vamos sofrer menos se começarmos a obedecer, usar máscaras de qualidade, não esquecer delas, se higienizar e se mantermos 2 metros das pessoas.

É como eu faço, chego em casa e fico longe da minha filha, eu na porta e ela na cozinha, sempre longes. Me pergunte se eu acho isso gostoso? Eu acho isso horroroso, me dá vontade de chorar todo dia, mas eu não posso contaminar minha filha.

É lamentável, mas o que eu pediria a população é que ela parasse um pouco, refletisse e pensasse nisso que estou falando. Você quer continuar sofrendo por muito tempo? Ou participar de uma corrente do bem, seguindo as regras. Porque se não vamos ficar penando e mais do já estamos, não esperem nenhum milagre.