“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.”
(Fernando Pessoa, Mensagem)

Hoje ouvi uma apresentadora de rádio dizendo que os apoiadores do presidente irão armados às manifestações de 7 de setembro.

Ao longo dos últimos anos, o movimento conservador vem colocando milhões de pessoas nas ruas e tudo sempre tem transcorrido da maneira mais pacífica imaginável. Chega a ser miraculoso. O maior nível de agressividade é chamar o atual líder das pesquisas e patrão supremo ― aquele que foge do povo, leva descompostura de menino e fecha praia para nadar com a noiva ― de “cachaceiro” e “presidiário” ou mencionar a conhecida capacidade intelectual de nossa ex-Mulher Sapiens. São manifestações com enorme participação de famílias, crianças e idosos, durante as quais que não se não vê um sopapo, uma vidraça quebrada, um pneu queimado ― que dirá tiro. Nossos maiores crimes são, pela ordem, rezar o Pai-Nosso e cantar o Hino Nacional. Ô gente perigosa.

Em comparação, as manifestações da esquerda sempre compensam o número menor de participantes com brigas, agressões, queimas de pneus, destruição de patrimônio, vandalismo, ameaças de morte, faniquitos, mulher feia pelada e, na época dos famigerados black blocs, a morte de um cinegrafista.

Mas não é que a moça do rádio tem certa razão? Eu irei armado às manifestações. Já aviso a todos que guardarei minha arma no bolso, mas estou disposto a sacá-la quando houver necessidade, e usá-la sem nenhum constrangimento. Terei por alvo aqueles que merecem. Preparar… apontar… e…

Creio em Deus Pai todo-poderoso, criador do Céu e da Terra, e em Jesus Cristo Seu único Filho, Nosso Senhor…

É assim que eu começo a utilizar minha arma predileta, o Santo Rosário. Ao recitá-lo, gastarei farta munição: 3 Profissões de Fé, 18 Pais-Nossos, 159 Ave-Marias, 18 Glórias, 18 Orações de Fátima, 3 Salve-Rainhas, além das jaculatórias entre um mistério e outro. Não sou o primeiro nem o último a utilizar tal armamento. Desde o século IX, o Rosário vem sendo recitado por gerações de fiéis em todo o mundo, gerando graças incontáveis por toda parte e até onde não há parte alguma.

Meu terço é pequeno e rústico, feito de madeira e cordão. Não tem valor material, só sentimental: me acompanha há alguns anos. Creio que não vão confiscá-lo se eu o levar às manifestações, mas a gente nunca sabe ― afinal uma vez agentes fortemente armados confiscaram uma camiseta do Ursinho Puf a mando do Xandão. Já o devolveram? O HD com as fotos antigas da mãe do Bernardo ainda não.

Contudo, quem pensar que meu arsenal se reduz ao tercinho de madeira definitivamente ignora o meu grau de periculosidade. Entre as armas que levarei às manifestações da Independência, está o meu famigerado caderninho de anotações! Só Deus sabe o que pode entrar nas páginas desse também antigo e, para alguns, ultrapassado método de documentar a realidade. Não apenas a realidade, mas também os pensamentos e sensações decorrentes do contato com ela. O caderninho de anotações é a minha nuvem pessoal, onde guardo segredos que nem o Xandão irá desvendar, porque escritos numa língua que só eu compreendo: o briguetês.

Outras armas levarei eu no imo peito, para usar a deliciosa expressão de Homero: a consciência moral, a liberdade de expressão, a liberdade de ir e vir, a liberdade de escolha, o direito ao trabalho (e aos seus frutos), o amor pela minha Pátria, o amor pela minha família, a honra aos meus antepassados, o orgulho pelos nossos maiores feitos, o orgulho pelo nosso patrimônio cultural e, o mais importante, o amor a Deus e aos Seus Mandamentos sobre todas as coisas.

Sou um convicto defensor do direito à autodefesa. Defendo o direito do cidadão de bem a portar armas de fogo. Episódios como a noite de terror em Araçatuba ― onde morei durante minha adolescência ― dificilmente ocorreriam numa cidade em que as pessoas estivessem armadas. Mas a crônica não é o lugar para discutir esse assunto. Aqui é lugar para falar sobre o amor que eu tenho ao meu país, à minha liberdade e à minha cultura. Por todos esses motivos, estarei armado no dia 7 de setembro e irei contribuir, por um mínimo que seja, para o início do longo trabalho de parto de uma Nova Independência do Brasil.

“Tomai, portanto, a armadura de Deus, para que possais resistir nos dias maus e manter-vos inabaláveis no cumprimento do vosso dever. Ficai alerta, à cintura cingidos com a verdade, o corpo vestido com a couraça da justiça, e os pés calçados de prontidão para anunciar o Evangelho da paz. Sobretudo, embraçai o escudo da fé, com que possais apagar todos os dardos inflamados do Maligno. Tomai, enfim, o capacete da salvação e a espada do Espírito, isto é, a Palavra de Deus.”
(Efésios 6, 13-17)

― Paulo Briguet é cronista e editor-chefe do BSM.