A secretária de Saúde de Cuiabá, Ozenira Félix, participa nesta terça-feira (27) da sessão plenária da Câmara de Cuiabá para prestar esclarecimentos sobre a denúncia de existência de centenas de medicamentos vencidos encontrados no Centro de Distribuição do Município.

A denúncia foi feita pelos vereadores de oposição: o licenciado Diego Guimarães, sua suplente Maysa Leão e o tenente-coronel Marcos Paccola – todos do Cidadania.

No local, eles encontraram uma sala, além de um corredor externo, cheios de paletes empilhados com medicamentos e insumos que vão de Paracetamol a latas de leite em pó. Um dos remédios encontrados, o AmBisome, custa em média R$ 20 mil cada caixa.

Eu não tenho problema em ser cobrada, mas gostaria que quem estivesse ouvindo, entendesse que a minha cor não me define
Desabafo e racismo

Ao iniciar a sua fala, Ozenira fez um histórico de sua carreira, passando pelo Governo do Estado até chegar à Secretária de Saúde de Cuiabá. Nesse momento, ela chegou a chorar ao definir situações de racismo que estaria sofrendo nos últimos dias.

Ela, no entanto, não esclareceu os autores das ofensas, apenas que não partiu dos vereadores.

“Estou contando a minha história, porque existe um impacto por eu ser negra. Esses dias eu tenho sentido o que eu nunca senti na minha carreira inteira. Como diz a Edna [Sampaio, vereadora], ainda éramos ‘negras brancas’. Eu não tenho problema em ser cobrada, mas gostaria que quem estivesse ouvindo, entendesse que a minha cor não me define”, disse.

“Isso eu não tem nada a ver com os vereadores, mas com o que eu tenho passado nesse momento agora, que eu acho que ninguém sabe e eu tinha que fazer esse desabafo para a população. Não se define uma pessoa pela cor. Eu tenho uma história de vida muito maior do que isso”, completou.

Ela ressaltou que aceita os ataques no trabalho, mas não os ataques pessoais.

“Eu gostaria de desculpar a parte do desabafo, porque não está fácil. Não é o problema do medicamento. O que mais dói são os anos de trabalho serem comprometidos pela cor da minha pele. Não posso admitir isso. Isso realmente me incomodou, porque isso machucou o que eu tenho de melhor, que são os meus filhos. Isso machucou profundamente os meus filhos e isso é inadmissível. Meus filhos não têm nada a ver com isso”, finalizou.

Medicamentos vencidos

Segundo a secretária, logo ao assumir a pasta, em outubro de 2020, o responsável pelo CDMIC a procurou para apontar a sua preocupação quanto a medicamentos vencidos, na época.

Ozenira levou 21 caixas de documentos, notas e relatórios que já estavam sendo analisados por uma comissão instituída na Secretaria de Saúde. Ela reconheceu que há falhas no sistema, afirmou que não há justificativa para elas, mas que a pasta busca corrigi-las.

Ela destacou que é temerário apontar que a culpa é apenas de “A ou B”. “Seria muito simples dizer que a culpa é de José ou de Pedro, não existe culpado A ou B. Existe todo um processo que vai de uma unidade de saúde até a Secretaria”, afirmou.

Ela afirmou, ainda, que eles notaram nas gravações feitas pelos vereadores que há medicamentos vencidos no depósito que não deveriam nem mesmo ter sido adquiridos pelo Município.

“Um farmacêutico nosso viu nas filmagens que vocês fizeram, que são os medicamentos que a Prefeitura e Cuiabá adquire. E nas gravações, nós observamos que aparece um medicamento que não faz parte do nosso rol de medicamentos, o que nos preocupou sobremaneira”, disse.

“Abrimos um procedimento, porque medicamentos que não estão no nosso rol não poderiam ser comprados. A não ser que sejam aquisições por questões judiciais, que ficam em local separado”, explicou.