Nunca foi tão fácil prever quem seria o campeão brasileiro. E nunca foi tão difícil para tal previsão se tornar realidade. O favorito mais evidente de todos os tempos precisou ir até o último segundo, da última rodada, para comemorar o título. Com toda a justiça, o Flamengo é campeão brasileiro pela oitava vez, a segunda seguida.

No guia ge da edição 2020 do Campeonato Brasileiro, profissionais desta Redação atribuíram pontos aos times de acordo com seis critérios. O Flamengo fez 47 dos 50 pontos possíveis, com uma diferença para o segundo colocado maior do que a distância entre quaisquer outros times (segundo essa previsão, o Inter seria a oitava força).

É tão tentador quanto equivocado repetir o clichê de que ninguém quis ganhar o Brasileiro. Como sempre, todo mundo quis. Como sempre, só um conseguiu: justamente quem estava mais preparado para lidar com a exaustiva corrida de obstáculos em que se transformou esta edição do torneio.

Rogério Ceni é campeão do Campeonato Brasileiro pelo Flamengo — Foto: Marcos Ribolli

Rogério Ceni é campeão do Campeonato Brasileiro pelo Flamengo — Foto: Marcos Ribolli

A frequência vertiginosa com que se joga futebol no país torna mais difícil a tarefa de analisar o que realmente foi este Campeonato Brasileiro. Quando o ano virou, o São Paulo tinha sete pontos de vantagem na liderança. Durante boa parte da temporada, o Atlético-MG parecia o mais pronto para escalar até o topo da classificação. Palmeiras e Grêmio provavelmente brigariam num andar mais alto se não priorizassem as Copas. Não se pode culpá-los.

Em 6 de janeiro, De Arrascaeta declarou que “assim, não merecemos ser campeões”. Na semana seguinte, a cabeça de Rogério Ceni estava a prêmio e o campeão brasileiro foi tratado por “time sem vergonha” pela própria torcida. Três rodadas atrás, o então líder Inter conseguiu perder em casa por 2 a 1 para o Sport, então candidatíssimo ao rebaixamento.

O futebol em tempos de pandemia oferece exemplos no mundo inteiro de como é difícil manter consistência – e nesse cenário as comparações com 2019 fazem ainda menos sentido. Como disse Filipe Luis após o título, com a clarividência que lhe é peculiar, seria impossível repetir os 90 pontos da temporada anterior. Com 71 pontos, a oitava pior defesa e uma derrota no jogo derradeiro, foi suficiente para o bicampeonato.

Saíram de cena as exibições estonteantes e a conquista celebrada com rodadas de antecedência por multidões no Maracanã e nas ruas do Centro do Rio. O título de 2020 foi celebrado num Morumbi vazio por jogadores diante da tela de um telefone celular, aflitos com o que poderia acontecer a 1.130 quilômetros dali, no Beira Rio.

O time de Jorge Jesus praticava um esporte diferente de seus concorrentes, a ponto de rivais manifestarem publicamente que não conseguiam entender o que os jogadores do Flamengo faziam durante uma partida. O time de Rogério Ceni (e, para o devido crédito, de Domenec Torrent) é o vencedor de uma corrida de sobrevivência – o que, no contexto atual, não é demérito algum. Ao contrário.