O comum acordo, ou “mútuo acordo” nos termos usados pela CBF ao redigir o regulamento do Campeonato Brasileiro de 2021, é prática antiga no Brasil. A novidade é torná-lo algo institucionalizado, regulado.

Em geral, funcionava da seguinte forma. Após contratar sem qualquer critério um treinador que, por sua vez, substituirá um colega demitido apenas pela repercussão ruim de resultados do fim de semana, um clube resolve mandar embora seu técnico de turno. Para amenizar o impacto na opinião pública, ou mesmo para evitar posar de triturador de treinadores, o dirigente percebe que anunciar um rompimento consensual pode soar mais civilizado. Por sua vez, ciente da dança das cadeiras que é o universo do futebol, o treinador aceita aderir ao discurso, afinal é sempre bom sair “deixando amigos e portas abertas”. No fim, o Campeonato Brasileiro tem quase 30 trocas de comando, mas são raros os conflitos.

Pois agora o “mútuo acordo” consta em regulamento. E com o pior dos efeitos. Já era possível desconfiar que a nova regra limitadora das demissões de técnicos teria efeito reduzido. Era um passo tímido e permitia ter quatro treinadores numa temporada sem infringi-la: bastava contratar um técnico para o Estadual, trocar às vésperas do Brasileiro, demitir novamente ao longo do torneio nacional e encerrar o ano com um auxiliar da casa. Mas o anúncio da nova regulamentação, coincidentemente em meio ao vazamento de um vídeo constrangedor da reunião entre o presidente da CBF e os clubes, foi feito com ares de reforma modernizante. E, a bem da verdade, até era possível enxergá-la como um pequeno avanço.

Até que a publicação do regulamento do Campeonato Brasileiro, em sua redação final, expôs uma realidade indigesta: bancamos os bobos debatendo e tentando entender os efeitos da nova proposta. O essencial fora mantido em sigilo, mas agora o respeitável público foi informado de que rompimentos de contrato por “mútuo acordo” não contarão para a limitação das demissões de técnicos. Ou seja, a brecha está aberta para que esta instituição tipicamente nacional permita que a falta de planejamento e o improviso sigam com via praticamente livre.

Convenientemente, dirigentes que contratam sem saber o motivo poderão continuar demitindo sem justificativa. Enquanto isso, treinadores que pretenderem manter a relação amigável neste mundo pequeno do futebol poderão aceitar a ruptura consensual. Para nenhum dos lados, a quebra do contrato será contabilizada, ficará sem efeito diante da nova regra. Um faz de conta legalizado, uma muleta.

Há apenas uma hipótese em que a atual relação de trabalho pode ser afetada. Ocorre que, por vezes, além de se sujeitarem ao discurso apaziguador, benevolente com dirigentes, treinadores saem dos clubes deixando para trás dívidas consideráveis. Relutam até em cobrar direitos na Justiça para evitar “fechar uma porta”. Agora, poderão negociar a assinatura do “mútuo acordo” e condicioná-lo ao pagamento dos valores a que têm direito. Uma via torta para assegurar o que deveria ser direito básico.

Há poucos motivos para acreditar que o novo regulamento produzirá forte impacto, que a música vá parar de tocar para a dança das cadeiras dos treinadores. A roda promete continuar girando, para a conveniência de todos.

Por Carlos Eduardo Mansur

Jornalista. No futebol, beleza é fundamental