Em 2020, grande parte do Pantanal ardeu em chamas. O bioma teve a pior temporada de queimadas dos últimos 20 anos. Cerca de 40% do território devastado não pegava fogo desde 2001. Fazendas e áreas abandonadas entram na lista e se tornam, cada vez mais, obstáculos imponentes no combate ao fogo.

A previsão para 2021 não é muito animadora. O intenso período de seca que a região viveu no ano passado deve se repetir, aumentando as chances de desastres ambientais.

Durante a estiagem, ocorre o acúmulo de uma grande quantidade de material vegetal seco, que se transforma em combustível, favorecendo a ocorrência desses grandes incêndios.

Acontece que, sem moradores, animais ou o mínimo de cuidado, aumenta o acúmulo dessa massa de matéria orgânica, “que é quase uma gasolina”, como diz o integrante do Grupo Guardiões do Pantanal e presidente do Sindicato Rural de Poconé, Raul Santos Costa Neto.

(Boi é considerado o bombeiro do Pantanal)

A teoria do boi bombeiro

“Esse é o primeiro grande problema: o acúmulo de material seco que fica nas fazendas sem limpeza. A falta de animais também aumenta esse material. Existe um contexto para a história do ‘boi bombeiro’”, ele explica.

Por mais polêmica que seja a expressão, a afirmação de que o gado age como “bombeiro do Pantanal” tem base científica. O termo foi originalmente cunhado pelo pesquisador e professor aposentado da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Arnildo Pott.

Ao usar a expressão, ele refere-se especificamente ao papel fundamental na eliminação de pasto ou capim seco. “A falta do animal, lógico, aumenta a quantidade desse material”, afirma Raul.

Para Raul, porém, o fato mais relevante é a falta do ser humano no Pantanal. Sem moradores, não há ninguém para dar informações sobre a propriedade que precisa de cuidados e sobre acessos aos locais em chamas, por exemplo.

Abandono versus política pública

O abandono dessas áreas teve início há cerca de 30, 40 anos em função, principalmente, da falta de políticas públicas que incentivasse o uso da área. A ausência de apoio público, segundo Raul, inviabilizou a vida do homem pantaneiro e o uso do bioma.

“O pantaneiro tem dificuldade, o custo da produção subiu muito. Sem dinheiro, não tem como ficar na área. Hoje, o Pantanal está abandonado tanto pelo ser humano quanto pelo governo”, afirma.

Para além do uso da terra, Raul cita a falta de infraestrutura para sobrevivência das famílias: escolas, postos de saúde, estradas. “Como quer que o homem pantaneiro viva ali, se o governo não dá condições mínimas?”, questiona.

Mas nem sempre foi assim. Na década de 1940, tempos de outrora, a exemplo da região do Rio Alegre, haviam comunidades com “padarias, comércio, escola, posto de saúde. Já teve uma vida no lugar, já funcionou e hoje está abandonado”.