Após um ano de pandemia, já é possível ver as consequência da brusca mudança de rotina. No caso de crianças e jovens, as principais sequelas foram o aumento de diagnósticos para ansiedade, causadora de agressividade e irritação. É o que aponta a psicóloga Bruna Salgado de Macedo.

A profissional, que atua há 13 anos atendendo pais, crianças e adolescentes, explica que o cenário caótico e de perdas trazido pela Covid-19, somado a mudança da rotina escolar e familiar, foram fatores para mais casos de ansiedade.

As crianças estão expressando essa ansiedade através de inúmeras idas ao banheiro para fazer xixi, irritação e agressividade
“As crianças estão expressando essa ansiedade através de inúmeras idas ao banheiro para fazer xixi, irritação, agressividade dentre outros. Nos adolescentes, a ansiedade tem se apresentado mais parecido aos adultos, com coração acelerado, falta de ar, pensamento ansioso”, afirma ela em entrevista ao MidiaNews.

Outro fator que contribuiu no crescimento deste diagnóstico foi a forma abrupta com que os pequenos foram submetidos a sair de uma de suas zonas de conforto: a escola. Sem poder comparecer às aulas presenciais, instituições de ensino do Estado optaram pelo EAD (Ensino à Distância).

Na escola, a psicóloga explica que as crianças e os jovens aprendem muito mais do que as teorias das matérias básicas. É no ambiente escolar, segundo ela, que eles começam a socializar e fortalecer sua conexão emocional. Hoje, sem poderem se encontrar, esse convívio foi substituído pela tela dos eletrônicos.

Segundo Bruna Salgado, essa retirada do jovem do convívio pessoal com seus colegas, devido à pandemia, agravou uma preocupação já existente sobre os menores na era digital, que é o tempo que passam em frente às telas.

“Os jovens são prejudicados na construção e vivência de relacionamentos, justo nessa fase, que é essencial a troca com o outro para a descoberta de quem nós somos, do que gostamos”, disse.

“É nessa fase que nos permitimos viver diversas situações como conhecer pessoas, fazer amigos, se apaixonar, se envolver, se decepcionar, desfazer amizades. Como vivenciar todas essas situações se estão presos em casa tendo acesso ao mundo externo apenas através de telas?”, questiona.

Dificuldades do EAD

Além de toda a perda de relacionamento presencial com os colegas, a psicóloga também cita a falta de preparo que os professores tiveram para começar a lecionar à distância.

Por falta de tempo, os profissionais precisaram reinventar sua forma de trabalhar. Com a mudança, porém, não conseguem acompanhar de perto o desempenho dos alunos.

Consequentemente, a responsabilidade de monitorar os estudos do filho fica para os pais, que também estão sobrecarregados com trabalho e afazeres domésticos.

Arquivo Pessoal

Psicóloga Bruna Salgado
A psicóloga acredita que é preciso voltar às aulas, para dano emocional não ser maior

“Os pais por sua vez estão equilibrando o trabalho, a casa, filhos e agora são os professores, pois as crianças de 3 a 12 anos ainda não tem a capacidade cognitiva para acompanhar as aulas sozinhas. E por mais boa vontade que os pais tenham eles não são professores”, disse.

Por conta desses prejuízos, a psicóloga defende que o melhor caminho seria a volta às aulas, mesmo que de forma híbrida, intercalando o presencial e o online.

Para ela, isto é algo que já deveria ter acontecido, pois as sequelas psicológicas causadas durante esse período podem causar danos difíceis de serem reparados.

Além disso, destaca também que é essencial a criança e os jovens terem suporte no momento de retorno à rotina para que a experiência não seja encarada de forma traumática.

“Muita conversa, muita escuta para que eles se sintam acolhidos em suas angustias, medos e expectativas. Muita paciência com as crianças, pois essas podem ter um pouco mais de dificuldade neste retorno”, afirma.

Busca psicológica

Como reflexo de todas as situações que os jovens vem enfrentando, a psicóloga relata que teve uma procura crescente dos pais em seu consultório para ajuda psicológica no lidar com os filhos.

Preocupados, nem todos têm o tempo necessário para conseguir sanar as angústias sentidas pelas crianças. No entanto, o cenário também é um incentivo para acabar com o tabu das doenças psicológicas, que, por muito tempo, foram vistas como não importantes.

As áreas mais afetadas, segundo a profissional, são as de competência socioemocional, ligada à autoconsciência e ao autoconhecimento, a consciência social, em saber lidar com o sentimento do outro e também a habilidade de relacionamento e tomada de decisão.

“Os pais entenderam que podem contar com o auxílio de psicólogos para conseguir ajudar seus filhos a passar por todas essas questões de maneira mais leve e saudável emocionalmente. Não precisamos sofrer sozinhos quando podemos ter o auxílio necessário para que tudo isso passe de forma mais rápida e leve.”, finaliza.