Príncipe Harry e sua esposa, Meghan Markle, conversaram recentemente com Oprah Winfrey sobre suas dificuldades, na primeira entrevista que deram desde que deixaram de ser membros ativos da família real, no ano passado. O que aprendemos com os vídeos promocionais apresentados antes da entrevista ir ao ar, em 07 de março: não é fácil ser um príncipe.

Apesar dos muitos privilégios, é fácil se sentir mal por Harry, que cresceu sob os holofotes, e por Meghan, que muitos diriam que tanto buscou essa atenção e ao mesmo tempo lutou contra ela. Desde pequeno, Harry era seguido, rastreado. Ele ainda era criança quando sua mãe, a princesa Diana, foi perseguida até a morte por paparazzi, mas ele já tinha idade suficiente para se lembrar.

De acordo com estatísticas do Departamento de Assuntos de Veteranos, nos Estados Unidos, traumas na infância são comuns: cerca de 60% dos homens e 50% das mulheres experimentaram algum trauma em suas vidas. E isso os afeta como adultos, podendo se manifestar na incapacidade de controlar suas emoções, dormir bem ou ter uma função imunológica adequada. O transtorno de estresse pós-traumático (ou PTSD, na sigla em inglês) pode ocorrer semanas ou muitos anos após um evento traumático. Muitas pessoas não buscam a ajuda necessária, porque acreditam que é normal sentir medo ou inquietação. Mas se tornar pai, como Harry, pode desencadear efeitos desse transtorno, pois a paternidade torna a pessoa ciente da dinâmica em que estava presente quando era uma criança.

No caso de Harry, sua experiência na infância com a mãe sendo alvo da mídia a tal ponto que a levou à morte foi monumental. Ele tinha 12 anos quando ela morreu. Embora muitos telespectadores da quarta temporada de “The Crown” pudessem se lembrar do frenesi dos paparazzi que precedeu a morte de Diana, para Harry ainda deve ter sido chocante reprisar tudo isso. E é provável que a quinta temporada da série mostre a morte de Diana.

Então agora, quando já adulto, Harry diz a Winfrey que “não consegue imaginar como deve ter sido” para sua mãe e que sua “maior preocupação era a história se repetir”, não é difícil entender porque ele e Markle se afastaram da família real, embora essa atitude tenha chocado muitos no Reino Unido e no mundo.

Harry não é ingrato por não cumprir seu “dever”. Ele é humano e optou por reconhecer a dor que o desempenho dessas funções causou. Como ele disse ao apresentador James Corden, em uma entrevista que foi ao ar na semana passada: “Todos nós sabemos como a imprensa britânica pode ser e isso estava destruindo minha saúde mental. Eu estava, tipo, isso é tóxico. Então eu fiz o que qualquer marido e pai faria”.

Nós não podemos mudar o nosso passado, mas podemos mudar a forma como nos relacionamos com ele. Com base no que sabemos sobre a família real – onde as aparências são mais importantes do que o conforto, onde as crianças fazem aulas de etiqueta, onde as regras são muitas e feitas para serem seguidas – essa mentalidade do tipo ‘salve sua própria pele’ não é comum. Certamente não é admirada. Mas é isso que torna a decisão de Harry de se afastar ainda mais corajosa e admirável.

Durante a entrevista com Winfrey, Markle usou a pulseira de Diana para que ela “pudesse estar com eles”, bem como um vestido estampado com flores de lótus, que é um símbolo do renascimento e da vontade de viver, particularmente para sobreviventes de trauma e para aqueles que têm fé. Uma semente de lótus pode permanecer viva por milhares de anos sem água.

Em certo ponto da entrevista, Winfrey perguntou para Meghan: “você ficou em silêncio ou foi silenciada?”. Ainda não sabemos a resposta, mas está claro que, ao concederem a entrevista, Harry e sua esposa estão rompendo com um padrão antigo e familiar de permanecer calado para manter as aparências. Durante anos, a família real foi perseguida para satisfazer a fome interminável do público por detalhes e informações sobre suas vidas. Agora, Harry e Meghan estão nos dando isso. Esperamos que seremos corajosos o suficiente para ouvi-los.

Nota do editor: Autora do artigo, Peggy Drexler é psicóloga pesquisadora, produtora de documentários e autora de “Nossos pais, nós mesmos: filhas, pais, e a mudança da família americana” e “Criando meninos sem homens”. As opiniões expressas nesse artigo são exclusivas dela.

Texto traduzido. Leia o original em inglês.